BARROSMOURA

Lucas de Barros Moura
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Sempre acreditei que criatividade é fundamental na hora de escolher o nome
pra um blog. Aham.

Aqui tem mentiras e verdades, e não costumo legendar posts avisando em qual das duas categorias ele se encaixa.

O conteúdo do blog pode ser alterado com o tempo. Nada demais, sempre só detalhes pra melhorar a leitura.

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1.7.11 | 22:05 Foi sorte eu ter dormido praticamente todo o tempo que durou a viagem até aqui.Sorte porque não vejo razão para não ter sido diferente. Dormir num ônibus não é exatamente uma questão de escolha; enfim. Na segunda parte do caminho, depois de uma troca de veículos, pouco antes de eu adormecer novamente (sorte minha!) terminei de ler um livro muito bom que vinha se arrastando há quase um mês, apesar de ser excelente. Antes de ler a última página, no pouco que eu conseguia enxergar sem ter de me virar para a moça sentada na poltrona ao meu lado, notei o frio que ela sentia. Com movimentos rápidos, quase irritada, ela esticou cada manga da jaqueta e as segurou firme, puxou a bolsa em seu colo mais para perto, bem colada à barriga, cruzou os braços e encarou a parte de trás da poltrona da frente. Fiquei com pena, pedi que segurasse meu livro por um instante e fechei a fresta da janela que deixava entrar um pouco de vento. Agradeci pelo favor, tomei o livro de volta e continuei a ler. Novamente, com o pouco que eu podia ver sem ter de virar o rosto, percebi que agora ela retocava a maquiagem, sem qualquer vestígio do frio de um minuto atrás. Deixei pra lá, continuei lendo. Terminei de ler e dormi.

Estava frio, de fato; e chuvoso. Ainda está assim; a casa toda úmida, parece que está tudo apodrecendo. Não foi diferente durante todo o dia, quando eu ainda estava longe daqui. Acordei e a primeira coisa que notei - depois, é claro, de que não estava sozinho na cama (sorte minha!), foi que chovia. Bastou isso para me irritar. Chuva logo de manhã, uma prova na faculdade dali alguns minutos e pronto!, o dia estava começando a terminar e ainda eram sete horas.

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20.6.11 | 16:16
Enquanto espero meu orientador de iniciação científica:
A coisa que se espalha com maior facilidade em todo o mundo é a poeira. Num faixo de luz vêem-se milhares de partículas que logo estarão sobre uma superfície qualquer. E logo virão mais, e mais e mais, até que haja uma grossa camada de pó marrom muito nítido sobre seus livros, tela do computador e da televisão, mesa e chão. Em alguns lugares é inútil limpá-la, pois daqui alguns minutos uma nova camada estará lá - na minha casa esse tempo é de alguns dias. Em Cabul chamam isso de poeira eterna.

A poeira vem de diversos lugares, mas, diz-se, a principal fonte é a pele do ser humano. Reciclamos nossa pele o tempo todo, liberando células mortas e inúteis para dar lugar a células novas. Bem, não é exatamente uma reciclagem, já que as células mortas não são reutilizadas, mas substituídas. Nesse caso o que acontece é tao-somente uma substituição de células. Como quando um técnico de futebol tira de campo um jogador que não está rendendo e põe em seu lugar o reserva, descansado e com vontade de mostrar serviço.

Reciclagem, por outro lado, está mais para situações do tipo o açougueiro que não vem vendendo bem e as peças de carne expostas no freezer já não estão tão frescas, a ponto de não poderem ser vendidas ou consumidas. Então ele mói grandes pedaços de lombo, patinho, posta branca e vermelha e fabrica o que compramos por carne moída de segunda. Também existe aquele tipo de reciclagem que se faz com certos materiais que não serão mais utilizados em casa.

Unhas geram poeira. Elas crescem, o atrito com as coisas que manuseamos ao longo do dia raspam as células - já mortas - que as compõem e, num faixo de luz qualquer, lá estão os minúsculos pedaços do que um dia foi a borda de uma unha. Por isso pessoas que usam unhas compridas são parcialmente mais responsáveis pela poeira da cidade do que as pessoas que mantêm as unhas bem aparadas. Isso também vale para aqueles que insistem em cortar todas as unhas das mãos, exceto a do dedo mindinho - deve existir uma sociedade secreta em que esse tipo de gente se reúne e, lá sim, discutem e divulgam as razões para este comportamento misterioso ao restante da população. Desse grupo fazem parte os motoristas de ônibus, técnicos de times de futebol pequenos e açougueiros.

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19.2.11 | 17:30 PARTE 2 Então lembrei-me de que meu propósito ao sair do banheiro há alguns minutos era verificar o estado da casa, pensamento despertado pela sujeira acumulada em torno do ralo da pia do banheiro. Ignorei. Eu tinha fome.

Abri novamente a geladeira, como se abrindo e fechando a geladeira surgisse comida lá dentro. Abri, então, a carteira, como se surgisse dinheiro. Nada disso aconteceu, é claro, mas na segunda vez que abri a certeira, notei dentro dela um papel que soube na hora do que se tratava.

Era o telefone de uma mulher que conheci em um baile de formatura. Ela é uma dessas moças que fazem a recepção dos convidados. Na entrada da festa estavam ela e mais uma desejando boa noite e indicando as mesas às famílias e amigos dos formandos.

Lá pelas tantas, girei até perto delas, as únicas mulheres da festa que não fugiriam de mim com uma desculpa qualquer, já que eram obrigadas a ficar paradas de pé ao lado da porta. Ainda assim, a outra lembrou que precisava verificar o banheiro feminino e saiu dali.

Conversamos por um tempo; seu nome é Joana. Ela me contou que é universitária e faz recepções de formatura para ajudar no orçamento, e que até gostava do trabalho porque é fácil, ainda que fosse chato ter que se virar com bêbados em alguns momentos.

Voltei para a minha mesa e me despedi dos amigos. Na saída perguntei a ela se ela faria o favor de chamar um táxi para mim. Ela foi gentil e fez como eu pedi. Agradeci e pedi seu telefone; ela passou. Demos boa noite e vim para casa.

Eu amo o ócio. Não me importo de forma alguma com não ter o que fazer. Às vezes são altas horas da madrugada, já estou morrendo de sono e isso não quer dizer absolutamente nada, pois não preciso me preocupar com acordar cedo na manhã seguinte; então penso: essa é a vida que eu pedi a deus.

Peguei o cartão do taxista no qual anotei o telefone da Joana e girei até a cama para procurar por meu celular. Enquanto isso eu imaginei que tipo de universitária ela seria, já que aquele vestido azul de recepcionista anula a personalidade de qualquer mulher. Um homem dentro dele seria de muita personalidade, entretanto.
Talvez ela fosse intelectual, comportada. Roqueira, ou bicho-grilo. Ou poderia ser nada, uma moça normal.

Ela atendeu e demorou a se lembrar de mim; fazia quase um mês que conversamos na formatura. Ela se desculpou, disse que foram muitos bailes naquele fim de ano, mas que já se lembrava de quem eu era.

Fui direto ao assunto. Perguntei a ela se estava interessada em prestar-me um serviço por uma quantia modesta que não poderia ser paga à vista, já que ela fazia trabalhos por fora para completar o orçamento. Ela riu.

Perguntou do que se tratava, e eu expliquei que precisava de alguém para vir até minha casa cozinhar para mim, que eu tinha algumas coisas ainda cruas na cozinha que poderiam virar comida se passassem pelas mãos de alguém que soubesse cozinhar.

Ela ficou muito sem graça, pediu desculpas (me pareceu com pena), e disse que como era Natal, talvez ela não pudesse fazer o que eu estava pedindo, já que estava reunida com a família naquela noite.

Disse a ela que tudo bem e tentei tranqüilizá-la (ela pareceu realmente constrangida). Fez muitas perguntas, acho que ficou curiosa sobre minha família e coisas assim. Assegurei que estava tudo bem, que eu só estava com um pouco de fome (menti nessa parte, eu estava com muita fome!), e que ela poderia vir mais tarde, ou até outro dia se pudesse.

Dei a ela meu endereço, desliguei o telefone e comi todo o cereal do pote, que estava murcho e encharcado, do jeito que eu mais gosto.

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19.2.11 | 01:54 PARTE 1 Olhei para o lado e vi meu reflexo na televisão desligada. Voltei os olhos para o livro, mas no mesmo instante tornei a virar para a TV a fim de confirmar uma impressão que tive.

Eu parecia mesmo abatido. Fui até o espelho do banheiro; Amparados por gordas bolsas escuras, meus olhos se mantinham abertos até a metade. Vermelhos e cansados, pude ver pequenas veias rubras dentro deles.

A barba estava bem feita. No dia anterior a havia consertado nas bordas para disfarçar o relaxo. Estava comprida, mas tinha um formato razoável.

Lavei o rosto e, ao olhar para o centro da pia, notei a crosta amarelada gelatinosa que vinha se acumulando em torno do ralo. Perguntei-me como estaria o resto da casa.

Girei a roda direita da minha cadeira mantendo a esquerda muito firme. Dei meia-volta e saí do banheiro para dar uma olhada em como estava o restante da casa.

Moro numa quitinete, fazer a ronda é muito fácil. Talvez nem precisasse da cadeira de rodas; poderia percorrer toda a casa rastejando sem grande dificuldade.

Parei ao lado da mesa. O pote com um resto de cereal prendeu minha atenção, me fez lembrar que não comia há muito tempo. Não é exagero dizer que havia esquecido da fome.

Pus o pote no colo e girei até a geladeira. Desrosqueei a tampa e joguei um pouco de leite lá dentro. Fui até a pia, enfiei a mão no amontoado de louça suja e resgatei uma colher mais ou menos limpa pela água acumulada em um prato fundo.

Girei até o meio da casa, entre a mesa e a cama, o leite balançando dentro do pote. Dei uma colherada cheia de cereal com o máximo de leite que consegui juntar, e foi como se minha fome tivesse sido reativada, despertada de seu estado latente.

Eu precisava de comida. Engoli mais um pouco do cereal e fui atrás de comida de verdade.

Na carteira eu tinha cinco reais, muito pouco para encomendar qualquer coisa. Bebi água. Acho que o peso no estômago fez a fome aumentar. Fui ao banheiro, voltei, girei no meu eixo, olhei em volta procurando uma solução.

continua

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29.10.10 | 00:36 Abrir o guarda roupa de manhã e ter como única opção a mesma calça preta de todos os dias
às vezes quase me mata.

Não é uma questão de vestuário, não é a roupa. O problema real é outro. É a falta de perspectiva, a esperança de que o diferente aconteça e ele nunca acontecer, e o comodismo em cima do qual eu sentei e fiquei. Ou seja, não existe problema.

De vez em quando eu saio de óculos. Óculos de grau. Coloco eles e vou pegar ônibus de manhãzinha. Eu não preciso deles todo o tempo, um grau de miopia em cada olho, nada demais. Só coloco pra ter algo diferente em mim. Mas faço por mim mesmo, pra eu sentir que algo mudou, mesmo que seja físico, uma armação incomodando na cara.

Preto não é uma cor. Preto é a ausência total de cores. E, na minha cabeça, cores escuras estão mais próximas do preto do que as cores claras. Simplesmente por serem escuras. Posso estar fisicamente errado, mas isso não tem nada de física, ciência não me explica agora. Pois bem. Hoje, mais cedo, me perguntaram se eu estou bem. Eu respondi que estou normal, que tudo está como sempre. Me responderam: "Marrom. Acontece de vez em quando.". Ele definiu perfeitamente a situação: Marrom. Marrom não é preto, mas é quase. Não é preto porque eu não permito que seja, eu não me permito. Acho ingratidão demais com a vida eu sucumbir ao preto, eu desistir das coisas pela simples falta delas. Eu não tenho problemas! Meu problema é o comodismo. Não vou levantar daqui agora e procurar alguém pra namorar. Não vou levantar daqui agora e procurar pessoas com quem eu realmente me identifique e me ache parecido. Não vou levantar daqui agora e fazer qualquer coisa que eu tenha certeza que devo fazer.

Às vezes só dá vontade de agir como se existissem problemas, quando na verdade não existe nada. Não há nada de ruim acontecendo. Ruim é passar fome, ruim é ter frio e ruim é não ter esperanças de futuro. Vida ruim, na minha opinião, é a dessas crianças que moram em frente à minha casa. Elas têm uma mãe, mas ficam na rua até mais tarde do que eu. Já pedi a eles pra pararem com o barulho porque eu precisava dormir. E eu tenho vinte anos, eles têm dez! É assim mesmo que tem que acontecer? É assim mesmo que eu tenho que ser? Na minha opinião a vida que eles levam é ruim, vejo neles delinquentes em potencial. Ponto. Provavelmente eles não vão ter um futuro tão bom quanto o meu pode ser, se eu quiser. Isso é motivo suficiente pra ser eu a abrir a janela e pedir pra eles pararem de brincar de madrugada? Talvez eu devesse aproveitar que fui acordado por essas crianças e sair, ligar pra alguém e me divertir um pouco.

Mas a questão é, já falei disso mais cedo em outro lugar (no twitter, essa bosta): Não tem uma só pessoa a minha volta capaz de me dar respostas. Eu acordo e vejo tanta gente, mas termino o dia exatamente como comecei. Eu não quero ligar pra ninguém. Isso pode ser ofensivo a alguém próximo a mim que por acaso venha a ler esse texto, mas é essa a minha verdade hoje. Eu não consigo pensar em uma só pessoa que eu tenha vontade de ligar ou procurar. Um nome ofuscado por muita fumaça me vem à mente, mas jamais vai acontecer. Esse não. Ou seja, quem resta? Eu mesmo, Cortázar, Bukowski, Mann, McEwan¹, não sei. Acontece que, ultimamente, eu tenho tido que me dedicar muito mais a Newton, Toricelli, Laplace², esses caras de quem eu gosto bem menos.

As coisas não estão acontecendo como eu quero, mas eu também não estou fazendo nada pra consertar a situação. Por isso não posso reclamar. Só tem o direito de reclamar quem levanta e faz melhor.

¹ escritores
² físicos, matemáticos

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27.9.10 | 00:40 A epifania

Em anos de trabalho só me arrependo de ter aceitado um único serviço. Lavo roupas de estudantes há muitos anos. Em minha casa, com algumas empregadas contratadas, separo e lavo a máquina trouxas e mais trouxas de roupas de todos os tipos de pessoas todos os dias. Em um desses dias apareceu alguém novo, esqueci de perguntar seu nome, talvez por isso jamais tenha esquecido seu rosto. Disse a ele meu preço, ele aceitou e deixou uma mochila com o combinado de buscar suas roupas lavadas e passadas em dois dias.

Ele retornou no dia marcado, bateu à porta e ninguém atendeu. Seguiu pela lateral da casa chamando por meu nome e não obteve resposta. Andou até os fundos do quintal e pela primeira vez meu segredo foi descoberto por alguém que não era do meu convívio: Meu quarto secreto fora violado pelo garoto.

Ele viu minhas imagens, meus santos, meus bustos e caveiras. Laços e amarras coloridas, tranças, colônias especiais e águas carregadas. Maços de cabelo pendendo nas paredes, peças de roupas furtadas, fotografias marcadas e bonecos.

— Vim buscar minhas roupas.

Voltei-me com um salto e um grito que não pude controlar.

— O que você está fazendo aqui? Saia já! — Empurrei-o para fora, ele não disse uma palavra, bati a porta atrás de mim e parei por um instante com as mãos no rosto.
— Se contar a alguém eu vou saber — ameacei.
— Vim buscar minhas roupas — foi tudo o que respondeu.

Fomos para a lavanderia, devolvi suas roupas em silêncio e ele se foi.
Sei perfeitamente o caminho que ele fez para chegar até mim há dois dias. Seus cabelos pretos não me enganaram, somente os ventos da tristeza poderiam tê-los moldado daquela forma. Ele voltaria em breve para pedir-me algo, e eu soube de antemão que não poderia atendê-lo.

Chegara o dia. Ele estava de volta, sem mochila de roupas sujas. Mandei que entrasse e sentasse.
— Se contar a alguém eu vou saber — reiterei a ameaça.
— Eu já contei — ele respondeu.
— Não, não contou.
— Como sabe?
— O que você quer para ficar de bico calado?
— Que diferença faz? Se eu contar a senhora não poderá vingar-se?
— Sim.
— Então?
— Só faço o mal em último caso.
— Todos aqueles maços de cabelo, fotografias e bonecos são para o bem?
— São.
— Não acredito.
— Que outra escolha você tem? O que você entende?
— Posso contar para as pessoas que a senhora lava nossas roupas com água de macumba.

Eu ri.

— Você não acredita nisso. Está usando uma das camisas que pegou de volta naquele dia.
— É verdade. Posso mentir para as pessoas, simplesmente.
— O que você quer?
— A senhora fará qualquer coisa?
— Sim.
— Quero que faça uma pessoa ter uma epifania.

Tive de rir novamente.

Continua. Ou não.


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13.7.10 | 20:41 Um amigo fez um elogio muito legal aos textos do blog, falando de coisas que eu escrevi há, sei lá, há muito tempo. Fui vasculhar com ele os arquivos pra acompanhar os textos de que ele falava e eu já tinha me esquecido e... o blog fez três anos mês passado! Credo.

Tem duas coisas que me chamam a atenção nisso:
1 - O BloggerBr ainda existe apesar de tudo, e não sumiu com os textos de todo o mundo.

2 - Descendo ao fim da página dá pra ver o post de quando o BARROSMOURA fez dois anos. Isso mostra o quão assíduo eu não sou nas postagens.

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13.7.10 | 13:44 Negócio é o seguinte. Tô escrevendo um romance.

E isso é uma coisa tão legal, tão grande, tão desafiadora, que olhe. Nem sei dizer. Mas, acima de tudo é incerto. Porque, conforme eu escrevo, não tenho certeza se sei mesmo o que estou fazendo, ou se tô só escrevendo, escrevendo, escrevendo e rumando pro nada. Sim, porque posso chegar ao fim da história e ver que o esforço não compensou, que o livro não vale a pena, que não é capaz de prender ninguém à leitura. E esse é meu medo. Aí é que mora a insegurança.

Estou na primeira versão dele. É uma ficção. Depois de terminar essa primeira, parto pra segunda, que consiste praticamente em reescrever todo o romance. É sério. Li que, quando ler a primeira versão, na hora de começar a segunda, vou achar tudo uma droga. A história pode estar desconexa, os personagens provavelmente serão fracos e o livro no geral não será interessante, fora as frases fora de lugar e os parágrafos desnecessários. Isso me faz relaxar um pouco: saber que tá ruim!, mas é assim mesmo, é uma característica da primeira versão, que deve ser escrita sem muitos cuidados. Não que se deva necessariamente fazer desse jeito mas, dentre as possibilidades de como escrever o livro, esse foi o jeito que eu achei mais legal: escreve, escreve, escreve, pá pá pá, rapidão. E depois revisa, arruma, conserta, troca, corta.

Outra coisa que me tranquiliza é saber que essa insegurança acontece a todo o mundo que escreve. Até que se termine a primeira versão não se pode dizer qual é a história e nem se ela é boa de verdade. É como se a história flutuasse por aí, ou estivesse à deriva, até encontrar alguém, um par de mãos para digitá-la (ou uma só mão, haha, vai saber). O autor não tem o controle, isso que eu quero dizer. Pouquíssimos caras conseguem escrever do início ao fim um romance do jeitinho que planejaram. Menor ainda é o números de escritores que escrevem coisa boa desse jeito.
Por isso eu prefiro não planejar. Vou escrevendo, a história vai se escrevendo, e é isso.

E é isso, e é isso.
Não quero ter de me explicar, falar do porquê eu não posto aqui, acho isso chatinho de ler. Só digo que quando criei o BARROSMOURA, minha única intenção era usá-lo como depósito. Escrevi alguma coisa bacana, vai pro blog. Pensei alguma coisa legal e quero registrar, vai pro blog. E por aí vai. Como de costume, sem compromisso nenhum com posts, ok? Ainda mais agora.

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10.1.10 | 14:53 Macarrão de panela da Tia Cida
- 1 pacote de macarrão parafuso
- 1 lata grande de massa de tomate
- 1 lata de milho verde
- 1 lata de creme de leite
- 2 tabletes de caldo de galinha
- 1 pacote de frango desfiado (pacote. pois é.)
- azeitonas, champigon, mussarela e sal a gosto.

Numa panela de pressão, misture todos os ingredientes, exceto as azeitonas, o champignon e a mussarela. Misturando bem, adicione água que ultrapasse o nível dos ingredientes na panela. Tampe e deixe cozinhar. Tire do fogo três minutos após a o pino da penela começar a fazer barulho e girar. Né, aquela coisa que fazem as penelas de pressão.

Pra quê se tem um blog, afinal? Hãn?


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3.1.10 | 00:27 Nota: Este conto está sujeito a alterações. Nada que mude o rumo da história, mas com o passar do tempo posso revisar o texto e fazer algumas mudanças que tornem a leitura mais fluida. Escrever e publicar com pressa geralmente não dá em boa coisa, é preciso corrigir. Boa leitura.

E não custa recomendar o óbvio: Leia a parte 1 mais abaixo.

Meu nome é Mabel - parte 2

Meu nome é Mabel, e eu já não tenho vinte e dois anos faz tempo. Não tenho problemas de saúde, sempre tive salários razoáveis e nunca passei por grandes dificuldades pra conseguir namorados.

Hm.

Claro que é tudo mentira. Ninguém na face da Terra teve sempre salários razoáveis. Não alguém que mereça respeito. Com homens eu realmente não passei por grandes problemas. Fui rejeitada algumas vezes, mas tenho a sorte de não sofrer tanto nesses casos, sou meio arrogante, orgulhosa, engano fácil a mim mesma e esqueço que um dia algum homem já mereceu minha atenção.

O caso é que do jeito que surpreendi o Paulo me traindo peguei raiva dos homens definitivamente. E considerando que ele me traiu com a minha chefa, aproveitei pra pegar raiva de trabalho também. Mas não definitivamente; dinheiro é fundamental, homem não. Estava livre de preocupações por um tempo, sem namorado e sem compromissos profissionais.

Eu e Paulo morávamos juntos há quase um ano, então quando terminei com ele passei automaticamente de comprometida, funcionária da melhor agência de publicidade do Estado e moradora de um excelente apartamento para desempregada, solteira e sem-teto.

Ao menos eu poderia resolver a questão da moradia. Minha família estava fora da cidade. Minha avó morrera há alguns dias, e acho que eu fui a única que não compareceu ao enterro. Aconteceu que, no dia em que ela passou, eu ainda tinha um emprego e uma reunião inadiável com a Coca-Cola.

Meu pai deixara comigo a chave da casa deles pra que eu alimentasse os canários caso eles demorassem mais de dois dias. Quer dizer, eu estava sem abrigo e tinha comigo a chave de um casarão; minha avó não poderia ter morrido em melhor hora. Eu não fiquei feliz com a morte da minha avó, absolutamente. Mas todos da família estavam preparados. Ela andava muito mal das pernas, da cabeça, de todo o corpo. Não havia mais esperanças; no hospital ela era monitorada para que morresse com o mínimo possível de dor. Enfim, ela era uma boa velhinha e eu tinha uma casa inteira pra sofrer sozinha por alguns dias.

Matematicamente, se pra cada parente morto se resolvesse um problema, talvez bastasse que morressem mais dois pra eu conhecer um bom homem e receber uma proposta de emprego tão boa quando a anterior. Fora isso, eu estava sem opções.

Resolvida questão habitacional, precisava recuperar ao menos minhas roupas. Não tive coragem de voltar ao meu antigo apartamento, o máximo que consegui foi deixar um bilhete para Paulo.

Cheguei ao balcão da portaria exausta, toda vermelha e inchada. Parei por um instante, pensando no que escrever. Estava a ponto de cair no choro novamente quando o porteiro começou a me azucrinar com perguntas.

— Dona Mabel, precisa de alguma coisa?

— Papel e caneta, por favor.

— Quer que eu chame seu marido?

— Eu. Não tenho. Marido. — Mais uma pergunta e ele ultrapassaria a linha que separa educação de intromissão.

Eu não sabia como me dirigir a Paulo. E ele poderia entrar ou sair do prédio a qualquer momento; eu me mataria ali mesmo se cruzasse com ele.

Fungando, comecei a escrever. O porteiro não se conteve, fez questão de me interromper bem no meio do bilhete:

— Dona Mabel, o que a senhora tem? — Eu estava desolada, mas ainda era eu. Parei e olhei-o fixamente.

— Câncer.

Pronto. Não ouvi mais sua voz.

Terminei o bilhete calmamente, e passei a ele com recomendações de que fosse entregue somente a Paulo e mais ninguém. Com certeza meu ex namorado não foi o único a saber do meu ódio. O porteiro leu o bilhete tão logo eu pisei na calçada.

“Paulo, mande minhas coisas para a casa dos meus pais e depois pode se foder.”

Talvez eu devesse ter assinado. Ora, se ele tinha a habilidade de me trair com a minha própria chefe bem no meu nariz, era bem capaz de eu dividir o apartamento com alguma vagabunda e nenhuma de nós, nem eu nem ela, notarmos a presença uma da outra. Seria possível manter duas amantes num mesmo apartamento? Tudo indicava que ele devia ter outra. Ou outras. Ou outros! Não.

Apósdeixar o bilhete para Paulo, dirigi até minha nova casa provisória, estacionei na garagem e entrei. Larguei no carro as rosas que Paulo mandara, não as devolveria de jeito nenhum. Era um buquê caríssimo, ele teria de conviver com o prejuízo.

Enquanto isso, na portaria do meu ex prédio, meu ex namorado recebia do porteiro o bilhete.

— Boa tarde seu Paulo. E o Corinthians? — porteiros precisam começar diálogos de alguma forma.

— Opa! — Namorados filhos da puta precisam continuar diálogos de alguma forma.

— Seu Paulo, dona Mabel esteve aqui mais cedo e deixou um bilhete pro senhor.

— Ah é?!! — Paulo arregalou os olhos do tamanho de duas jacas.

— Parece que a coisa não ta muito boa pro seu lado, heim doutor. — o porteiro nunca perdia uma oportunidade.

Sem responder, Paulo saiu em direção ao elevador, quando foi chamado de volta pelo porteiro.

— E ela disse que ta doente.

Daí em diante foi ladeira abaixo, Paulo desesperado e uma vingança em potencial.

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